domingo, 9 de março de 2014

E se Pesquisássemos Todos Juntos? Edna Domenica Merola

          A socióloga Mônica Schiedler dedica-se ao estudo da gerontocultura há algumas décadas. No projeto Cine Debate agrega as contribuições da sétima arte aos estudos sobre cultura e gerontologia. Em 22/2/2014, tive o grato prazer de participar do Cine Debate, enquanto aluna regularmente matriculada de um curso de Especialização promovido pela UFSC, subvencionado pelo Ministério da Saúde, a saber: Atenção à Saúde da Pessoa Idosa.
         Stéphane Robelin é o diretor e roteirista de – E se vivêssemos todos juntos? –  França, 2010. O protagonista da história é um grupo: dois casais que vivem em suas respectivas residências e mais um amigo que mora sozinho. Os cinco visitam-se regularmente. No início da história, preservam seus hábitos de adultos, apesar da idade avançada.
         Claude (ator Claude Rich, hoje com 84 anos e na filmagem com 80 anos) mora só, mas tem um filho já maduro. A vida social de Claude se resume a encontros com mulheres profissionais do sexo, além das visitas aos amigos. Há quarenta anos, Claude teve casos secretos com as esposas dos amigos Jean (Guy Bedos, 79) e Albert (Pierre Richard, 79). São elas: Annie (atriz Geraldine Chaplin, 69) e Jeannie (Jane Fonda, 76).

         Jeannie foi professora universitária. É lúcida, inteligente, sociável, mas sofre de doença incurável e esconde sua ‘terminalidade’ do marido que é portador de transtorno de memória. Jeannie contrata um estrangeiro para levar o cachorro do casal para passear. O jovem alemão é pesquisador, tendo por foco a visão contemporânea do idoso. Seu orientador aconselha-o a realizar uma pesquisa de campo. Jeannie permite que ele passe a residir com eles. Jeannie cuida de pormenores de sua ‘terminalidade’ e de cerimônias de enterro e de adeus, com a cumplicidade de Dirk (Daniel Brühl, 35).
         O personagem Jean – ex - militante de esquerda e que viu na infância o pai ser morto pelos nazistas – sugere morarem juntos como nas comunidades hippies que existiram nos anos sessenta. Após o filho de Claude colocá-lo num asilo, o grupo resolve retirá-lo de lá e os amigos passam a morar juntos.
         Após a morte de Jeannie, o marido Albert sai às ruas para procurá-la, pois não se lembra de ter ido a seu enterro. Esquece que ela morreu, isto é, não consegue elaborar emocionalmente o ocorrido. O grupo de sobreviventes e o jovem pesquisador o acompanham. A cena mostra a técnica do duplo, utilizada em Psicodrama, quando o protagonista necessita de alguém que faça por (e com) ele o que não consegue fazer sozinho. Ou seja, Albert precisa de um egoauxiliar para prover o necessário para sua vivência que para ele se resume em elaborar a dolorosa perda da esposa e ego-auxiliar.

         As relações entre gerações mostradas no filme espelham vínculos familiares emocionalmente distantes. Há um único abraço ‘intergeracional’ e que acontece entre o jovem pesquisador e a idosa Jeannie (pesquisadora acadêmica aposentada) que coloca a questão: “– Por que não pensamos nos últimos anos?”
         Em Psicodrama, há modalidades de atendimento como terapia de casais e terapia de família. Essas práticas envolvem novas demandas de pesquisas sobre casais de idosos e famílias nucleares com membros idosos.
         O aumento demográfico e consequentemente da população idosa pode ter por foco o fenômeno social da longevidade como algo profícuo aos estudos das filosofias da natalidade tais como os de Hannah Arendt. Tal fenômeno poderá intensificar os estudos da Psicologia do Desenvolvimento e das Ciências Profiláticas da Saúde em geral, envolvendo grupos de sujeitos a partir de quarenta anos de vida. Vale intensificar os estudos iniciados por Vygotsky e explicativos de que a aprendizagem se circunscreve num processo histórico-cultural.
         Após a inauguração da Era Digital, os estudos do funcionamento cerebral e o mapeamento das áreas em suas funções comprovam a versatilidade do funcionamento cerebral. Estudos há que se reportam à inteligência emocional (Daniel Goleman), e às inteligências múltiplas (Howard Gardner), espelhando aquelas descobertas da neurologia. Esse estado de questão nos convida a afirmar que, enquanto o cérebro não morre (ou até que a última centelha se apague) estão abertas as possibilidades de aprendizagens e reaprendizagens.
         O desenvolvimento de pesquisas reverterá para o atendimento das demandas demográficas que pelas projeções estatísticas presentes terão seu auge em 2050, quando a porcentagem de maiores de 65 anos será maior do que a dos menores de 65.
         Aos jovens pesquisadores da década presente e às futuras gerações, a saber: das décadas de 20, 30 e 40 do século XXI, desejamos o sucesso que o personagem Dirk teve na trama do filme: E se vivêssemos todos juntos?
         Concluo a leitura do filme parodiando seu título – E se pesquisássemos todos juntos?– isto é, integrando os saberes e rompendo os casulos das amarras disciplinares e dos conceitos acadêmicos monológicos em suas defesas hegemônicas. Vale dizer, remontando a Edgar Morin: com uma metodologia de estudo que aponte para a religação dos saberes.
         

Um comentário:

  1. Olá Edna,

    Mto mto boa sua postagem!!!
    Obrigada pelo espaço e por compartilhar :)

    Um abraço,
    Rosi.

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